Water Rebozo

Water Rebozo

Na sua essência, o rebozo é uma arte ancestral de apoio às grávidas, que consiste no envolvimento da zona abdominal e lombar em panos, processo que proporciona um enorme conforto e flexibilidade às mães em todas as fases da gravidez, parto e pós-parto. O nome tem origem na língua espanhola e deriva da palavra xaile, sendo que no México se chama rebozo aos panos longos multi-usos e multi-coloridos que fazem parte da cultura daquele país.

 

Ao longo dos anos, desde tempos longínquos, a arte do rebozo nas grávidas tem sido desenvolvida em terra, num ambiente seco. Mais recentemente, tornou-se uma técnica aplicada também em água, com inúmeras possibilidades para criar bem-estar durante a gravidez e pós-parto.

 

Para além dos momentos de relaxamento e prazer, tão importantes nesta fase da vida de uma mãe, o Water Rebozo é igualmente uma ferramenta útil na preparação para o parto, porque estimula a zona uterina. No interior da barriga, o bebé vai sentir o conforto de um suporte ergonómico e os movimentos naturais do ambiente aquático. Um casulo dentro de um casulo.

 

A arte de Water Rebozo estimula o equílibrio do corpo e a fascia, camada que se encontra entre a pele e os músculos, articulações e ossos. O pano envolve e aconchega (sem tapar o rosto e respeitando o ritmo da respiração natural), e é o elemento que reconecta a fluidez entre os líquidos que compõem o organismo e o exterior. Desenvolvida por Water Doulas, esta prática tornou-se universal e versátil. Para as grávidas, a sensação é de segurança e entrega, de abraço e embalo – o mesmo que sentiram enquanto filhas.

 

Os movimentos suaves e amparados pelo pano proporcionam alongamentos e um total relaxamento. A mente desliga-se do tempo e do espaço, entra em fusão com o tecido, como se fosse uma enorme membrana que envolve o corpo e liberta as tensões. Para algumas grávidas, este é também um momento divertido, de pura alegria e gestos intuitivos. É uma espécie de antevisão daquilo que a maternidade pode ser.

 

Apesar de ser pensado para a fase de gravidez, parto e pós-parto, o Water Rebozo já provou ser útil também como terapia para outras situações.

 

Vamos falar?

vamos falar

 

“O silêncio dentro da bolha é um dos impactos mais significativos para quem recebe uma terapia aquática, pois permite ouvir os batimentos cardíacos, combinado com o relaxamento do sistema nervoso e um convite único para habitar uma frequência cerebral específica e exclusiva, semelhante à que temos quando acordamos de um sono. Neste artigo, desejamos explorar as razões para abrir uma janela para o receptor iniciar uma conversa e permitir que nós, como facilitadores, convidemos a falar durante a sessão de hidroterapia.”

É assim que Ofer Rosenthal, criador do Fly Deeper, começa um texto em que fala sobre a possibilidade de deixar uma porta aberta à conversa. A experiência somática na água permite que “a mente e os pensamentos estejam num precioso estado de ‘férias'”, e é por isso que muitas vezes a hidroterapia é abordada como um momento de silêncio. No entanto, a comunicação verbal pode trazer benefícios. Ofer aponta quais.

“Um dos assuntos mais comuns: ao ficar muito tempo na água surge a necessidade/urgência de fazer xixi, para alguns será mais fácil evitar, para outros será difícil ficar toda a sessão sem descarregar líquidos, por várias condições físicas e emocionais, muitos delas relacionadas com a sessão, como a gravidez, por exemplo. Um simples copo de água que foi oferecido antes da sessão ou um batido que foi bebido antes de vir com o estômago leve e sem fome pode alterar as condições.”

“O desejo de fazer xixi leva a mente dos receptores para os seus corpos e necessidades, ficarão presas ao tópico de inconveniência pelo resto da sessão e, para alguns, pode provocar fortes lembranças de vergonha e culpa; desde a mais tenra idade, quando urinavam na cama ou nas calças, o que é muito comum em muitas crianças ou mesmo na idade adulta por várias razões.”

“Mesmo como facilitador, experimentei muitas vezes a necessidade de interromper a sessão para a pausa de urina. Tive o relógio diante dos meus olhos para saber quanto tempo preciso esperar e a oportunidade de ter uma pausa para cuidar de minhas necessidades. Por isso este artigo é também para lembrar este facto a nós, facilitadores.”

“Ao tocar no conceito primordial de necessidades básicas, é preciso lembrar que também o “número 2″ pode surgir enquanto todos os órgãos estão a desfrutar a ausência de gravidade, de libertação emocional e de uma massagem hidrodinâmica.”

 

Percepção da dor

“Outro motivo comum para convidar quem recebe uma sessão a se sentir mais à vontade para falar é que normalmente haverá o despertar de questões pessoais importantes e relevantes que não foram faladas durante a conversa inicial, como uma lesão no pescoço ou sensibilidade em certas partes do corpo. Este esquecimento pode ter várias razões – pode acontecer porque se demora algum tempo a ganhar confiança ou simplesmente porque as pessoas não se lembram desses tópicos, estavam bem escondidos pelo subconsciente.”

 

“Quando estamos numa sessão profunda, especial e tocante, é quase certo que algo mudará e que não estaremos mais naquele “lugar” onde estávamos. É essencial o facilitador ir tendo uma atualização, para permitir compartilhar a mesma página e principalmente para ir compreendendo. Qualquer sessão tem o potencial para curar ou negligenciar estas questões.

 

Sem medo de falar

“Para ter uma visão mais ampla de compaixão, devemos lembrar-nos que a maioria das pessoas não são meditadores de alto nível. Estar em silêncio total por 45 minutos ou mais pode ser exigente para algumas pessoas e intimidante para outras. Se sabemos que as portas para uma conversa estão abertas, tudo pode mudar suavemente e permitir que expressões autênticas e tão preciosas surjam neste encontro, a cru e sem fingimentos.”

 

“A terapia da água tem o privilégio de tocar profundamente em muitos desses tópicos primordiais, um após o outro – somos capazes de tocar na história por detrás das histórias. Uma vez que as nossas habilidades crescem para além dos movimentos e gestos básicos, vemos a imagem maior e levamos os receptores a desassociar os conceitos de “nenhum controle” ou “desamparo”. Mesmo sem saber o que vai acontecer, são convidados a expressar-se.”

 

“Uma sessão tem o potencial de invocar, despertar e desconstruir pilares fortes de autopercepção criados pela sociedade, como intimidade, tolerância, aceitação e confiança.”

Da India com…Liquid Flow Essence

Dariya Kuznik

É uma das terapias que mais se baseia nos princípios e métodos do Watsu. Foi desenvolvida por dois terapeutas do Quiet Healing Center, em Auroville, na Índia, de frente para um cenário de floresta e mar, num ambiente que junta vários tratamentos complementares e alternativos, numa espécie de work in progress comunitário de diferentes áreas. Ou seja, um pequeno paraíso de bem-estar. 

 

Origem 

Entre as atividades deste centro, existe uma secção dedicada às terapias aquáticas, com uma piscina aquecida a 35 graus onde diversos terapeutas desenvolvem as suas práticas. Dariya e Daniel são a dupla de residentes que criaram este conceito chamado Liquid Flow, uma série de movimentos e toques que resultaram num estilo muito próprio, em consonância com as bases do Watsu. No centro e também noutros locais do mundo, são várias as pessoas dedicadas às terapias aquáticas que tiveram formação específica neste estilo, e muitas estão ligadas ao Liquid Zome. Por isso, estejam atentos! 

 

A experiência

É diferente porque mistura as qualidades do Watsu, do OBA (Oceanic Bodywork Aqua), da Healing Dance e da Water Dance. A terapia começa à superfície, enquanto o corpo vai relaxando, com movimentos suaves mas contínuos, para que os músculos e as articulações recebam os efeitos da água morna. 

Antecipadamente, pode-se combinar a colocação de um clip no nariz, para que seja possível desfrutar da segunda parte desta massagem: a submersão. É neste ponto que a experiência se torna mais profunda e relaxante. A sensação assemelha-se à passagem de rio por nós, numa fluidez de água que nos conforta e alonga o corpo. 

 

Os benefícios

São imediatos, mas também se prolongam pelo tempo. As massagens na água são uma forma única de libertar tensões e descansar o corpo. São um veículo de tratamento de lesões ou dores musculares. Mas são sobretudo um momento de ganhar confiança e desfrutar uma sensação de entrega que nos leva a ultrapassar barreiras e a deixar fluir a mente. A sessão termina com um suave retorno ao mundo exterior, para que o impacto não seja repentino. Há um “acordar” que nos desperta emoções e paz interior. Esta sensação de flutuar permanece mesmo quando pomos os pés no chão, e mantém-se quando caminhamos em terra firme, depois desta experiência maravilhosa. 

 

A magia da massagem sacro-craniana

Massagem sacro-craniana

A massagem sacro-craniana faz-se habitualmente após uma massagem normal na água, que à partida nos deixa com o relaxamento necessário para receber o bombom final. É algo um pouco inexplicável, porque só experimentando podemos sentir o que uns toques aparentemente simples alteram a nossa disposição e bem-estar. Realinhamento, despertar, abrir percepções, descansar, deixar de sentir peso e tensão facial… É realmente difícil explicar, por isso perguntámos à Marina Sans que processo é este, em que apenas segura na cabeça.

Antes do momento da massagem sacro-craniana, tu introduzes uma sessão de relaxamento em que trabalhas todo o corpo e fazes imersão. Porquê?

Antes do tratamento sacro-craniano na água, é necessário e muito positivo relaxar o corpo, especialmente o corpo articular, e também a mente, de forma a entrar na escuta crânio-sacral. Há mais possibilidade dos tecidos fluídos serem trabalhados. Não necessariamente com imersão, depende se as imersões relaxam quem vai receber a sessão.

A massagem sacro-craniana é subtil, quase imperceptível, no entanto, tem um objectivo específico. Podes explicar qual é?

O sistema sacro-craniano tem a função vital de manter saudável o meio em que o sistema nervoso central funciona, ou seja, o líquido cefalorraquidiano ou cerebro-espinal, que envolve e protege o cérebro e a medula espinhal, e em consequência as membranas meníngeas e os ossos aos quais se fixam, incluindo o crânio – abóbada, face e boca – e o sacro. O líquido cefalorraquidiano tem grande influência em muitas funções corporais.
Com um leve toque, um terapeuta treinado pode perceber as pulsações do sistema crânio-sacral transmitidas a todo o corpo através do sistema fascial. Como cada órgão, cada músculo, cada veia é envolvida por esta fáscia, uma restrição nela pode alterar a estrutura do corpo e afetar sua função. O trabalho terapêutico consiste em ajudar o paciente a restabelecer o fluxo normal de movimento pela atenuação ou desaparecimento dessas resistências.
Essa metodologia tem mostrado, além de relaxar e proporcionar clareza, aliviar uma ampla gama de distúrbios como disfunções congênitas, problemas de sucção e respiração em bebés, lesões do sistema nervoso central, medula espinhal e nervos cranianos, dor craniofacial e enxaqueca, fadiga e estresse, descoordenação motora, dor crónica no pescoço e nas costas, escoliose, discopatias, hérnia de disco, bruxismo e disfunções da articulação temporomandibular (ATM), distúrbios de aprendizagem, stress pós-traumático e emocional, autismo e transtornos de conduta.
É também recomendado como tratamento preventivo, pois melhora o sistema imunológico e proporciona mais energia, qualidade de sono e equilíbrio físico e mental.

Com as tuas mãos, sentes onde a massagem está a actuar? É diferente de pessoa para pessoa?

Oh, sim! Sinto os três pulsos ou fluxos diferentes (gosto de chamá-los de marés) do líquido cefalorraquidiano – quando atinge a cabeça, circunda o cerebelo e o cérebro e se expande pela coluna vertebral. Muda muito de pessoa para pessoa e na mesma pessoa em momentos diferentes. Já o fluxo desse fluido varia de acordo com as tensões ou bloqueios entre os ossos cranianos e espinhais e o estado da fáscia (conectado a tudo). Portanto, cada sessão varia conforme o estado do mar varia a cada dia.

Muitas vezes a capacidade de visão depois desta massagem fica melhor. Qual é a razão?

Sim. O líquido cefalorraquidiano encontra-se por trás dos olhos. Quando o crânio e a coluna são desbloqueados e o líquido pode fluir melhor, aumenta a quantidade de fluído que sustenta os olhos, por trás, para que a transmissão de informações entre eles e o sistema nervoso seja mais fluida e direta.

Que feedback tens das pessoas que recebem esta massagem? Como se sentem na maioria das vezes?

Resultados recorrentes após a terapia são sensação de melhor visão, maior clareza, eixo. Calma. Mais energia disponível. E muitos outros… Normalmente todos saem de uma sessão sacro-craniana felizes. Quem quer se integrar bem neste trabalho costuma fazer um processo de 10 sessões.

Quais são as condições ideais para um terapeuta aplicar esta massagem?

Para o tratamento sacro-craniano na água, as condições necessárias para este são muito precisas. Uma delas é silêncio, para ouvir o movimento de um líquido interno na cabeça da pessoa que recebe a sessão… A água na qual o corpo flutua deve estar em total quieta. Se for uma piscina, não pode haver outras pessoas nela ou qualquer tipo de circulação ou movimento da água durante o tempo de tratamento.
Outro aspecto importante é a temperatura. Sendo um tratamento que escuta os movimentos internos do corpo, mas sem movimentos externos e níveis elevados de relaxamento são alcançados, é essencial trabalhar na água à temperatura corporal (34-35 graus). O LiquidZome, para além de especial pelo seu carácter precioso e mágico, é uma das piscinas mais bem climatizadas que conheço.

Fascia e a experiência somática na água

Marina Sans

Esta viagem

começa com o encontro com Marina Sans, fundadora do Liquid Cosmos, um estilo muito particular, desenvolvido por esta deusa das águas, mestra de Aguahara e eterna curiosa sobre os mistérios que envolvem o nosso corpo. Um deles é a fascia, uma camada que é como uma rede, que se encontra em todas as partes do corpo (entre  a pele e os músculos, entre os ossos) e que guarda em si uma sensibilidade especifíca, objecto das investigações de Marina. Receber esta terapeuta no Liquid Zome é não só um prazer pela sua energia e companhia, como também pela sua capacidade de partilhar conhecimento, com e sem palavras, apenas observando a forma como trabalha a sua arte.

Fonte de vida

A importância da água e a enorme amplitude dos seus benefícios podem ser entendidos de tantas maneiras. No Liquid Cosmos, esse entendimento vai mais profundo. Tem uma leitura da experiência no campo fisiológico, terapêutico e artístico. É como uma dança, mas pensada para tocar nos pontos mais relevantes da fascia. Quem nos leva pelas águas e nos conduz em movimentos, tem uma consciência de toque diferente. Para isso, é preciso sentir as necessidades e estado em que se encontra a pessoa que recebe a sessão. Perceber se está muito cansada ou pelo contrário com muita energia, se tem algum problema físico que a incomode ou apenas um enorme desejo de relaxar. Lá dentro, como por magia, vamos descobrir sempre mais. E às vezes o que está a mais tem de sair cá para fora. É a tal transcedência das águas e o seu poder curativo. Pode ir sempre mais longe e surpreender.

Ouvir o corpo

Os múltiplos estados de consciência e percepção, os motores de acção e emoção, a dinâmica dos braços, pernas, tronco, cabeça, tudo isso são factores avaliados numa sessão fluída focada no elemento fascia. Daí o seu carácter somático, em que o objectivo é aliviar o corpo e a mente de tensões e mau-estar, de maleitas e perturbações, que tantas vezes se encontram escondidas. Neste tipo de investigação e exploração da educação somática, há toda uma viagem ao corpo humano, a todos os orgãos e ao universo completo que cada um de nós reúne. Quanto mais se estuda sobre a experiência somática a partir da fascia, mais caminho se abre para novos movimentos e novas sensações dentro de água.